Livro: O Sol é para todos – To Kill a Mockingbird

“A gente só conhece uma pessoa de verdade quando se coloca no lugar dela e fica lá por um tempo” O sol é para todos.

Começar a falar de um livro que, mesmo depois de décadas, ainda faz tanto sucesso, principalmente por causa de sua temática que ainda se mostra atual no presente, não é fácil. Porém, a situação fica ainda mais difícil quando esse livro se torna um dos seus favoritos da vida (do tipo que você quer reler assim que termina a última página, que você sente o desejo quase que visceral de possuir todas as edições já publicadas no mundo todo e que você tem vontade de comprar uma edição para cada um de seus amigos só para forcá-los a lê-lo imediatamente). Sinto que é quase o meu dever fazer com que todos se apaixonem por esse livro do mesmo modo pelo qual me apaixonei ou, pelo menos, sintam-se tocados de alguma forma por ele. Por isso, na posição que agora estou, de amiga maluca (sim, podem me considerar essa amiga a partir de hoje) que fica insistindo para você ler um livro incessantemente, tentarei fazer o possível para convencer você, leitor lindo desse blog, a ler O Sol é para todos.

Primeiramente, vamos começar pelo o que eu chamo de “detalhes técnicos”. O livro foi publicado em 11 de julho de 1960 pela autora Harper Lee e foi um sucesso instantâneo, recebendo o prêmio Pulitzer em 1961 e uma adaptação cinematográfica em 1962, com a história se passando na década de 30.

O livro é dividido em duas partes, com a história girando em torno de uma acusação de estupro de uma moça branca por um rapaz negro na pequena cidade de Maycomb, onde Scout Finch, narradora-personagem do livro, vive com seu irmão Jem e seu pai Atticus. A vida de Scout e de Jem começa a mudar quando seu pai, um dos advogados da cidade, se dispõe a defender Tom Robinson, acusado pelo estupro de Mayella Ewell. A partir desse momento, quase toda a cidade se volta contra os Finch, passando a xingá-los e ameacá-los, partindo da premissa que “todos os negros mentem, todos os negros são, por princípio, imorais, que nenhum deles deve ser deixado perto de nossas mulheres” (pág. 254) e, por isso, Atticus não deve defender um deles.

Por ser contado através do olhar de uma criança (a história começa a ser contada quando Scout tem seis anos e vai até seus nove anos de idade), o livro traz, na primeira parte, várias passagens da vida de Scout e Jem na pequena cidade rural, através das brincadeiras nas férias de verão com Dill, das aventuras para descobrir mais sobre o misterioso vizinho Boo Radley, dos bolos saboreados na casa da Srta. Maudie,  dos dias na escola no período das aulas e dos misteriosos presentes que aparecem dentro do tronco de uma árvore, desde chicletes a um relógio antigo.

Porém, não se engane. Não é porque o livro é escrito através do olhar de Scout que não se pode encontrar assuntos sérios em suas páginas. Mesmo sendo contados pela visão ingênua da garota, o preconceito, o racismo, o machismo e o nome que as famílias têm a zelar são assuntos constantemente retratados no livro, sendo aprofundados em sua segunda parte.

“Havia de fato um sistema de castas em Maycomb e, na minha mente, funcionava assim: a geração atual de pessoas que se conheciam havia anos, eram totalmente previsíveis para as outras: presumiam que o comportamento, os traços de caráter e até os gestos se repetiam e se refinavam através das gerações. Assim as máximas “nenhum Crawford cuida da própria vida”; “de cada três Merriweather um é mórbido”; “os Dellafield nunca dizem a verdade”; “todos os Buford andam daquele jeito” serviam de guia da vida cotidiana (…).” O sol é para todos, pág. 166.

A metáfora do Mockingbird, que foi traduzido para rouxinol na edição brasileira, é de um detalhe sublime que se refere não apenas a Tom Robinson, mas também, em minha opinião, a Boo Radley e a todos aqueles que não podem ou não conseguem se defender. Nela, é mostrado como é sem sentido odiar, tratar mal, humilhar ou ter qualquer outra ação negativa com aqueles que nunca sequer levantaram um dedo para você, apenas por acreditar, de alguma maneira, que essa pessoa é inferior.

“(…) O Rouxinol não faz nada além de cantar para o nosso deleite. Não destrói jardins, não faz ninho nos milharais, ele só canta. Por isso é um pecado matar um rouxinol.” O sol é para todos, pág. 118.

Com o decorrer do livro, a construção do caráter das crianças é realizada através de conversas com diversos personagens que acabam ensinando e mostrando ao leitor alguns aspectos duros da sociedade na época que ainda podem ser aplicados nos dias atuais.

“(…) Porque vocês são crianças e entendem. (…) Os sentimentos dele ainda não foram corrompidos. Quando crescer mais um pouco, não vai mais ficar mal e chorar ao ouvir certas coisas. Pode ser que ache as coisas meio erradas, digamos, mas não vai mais chorar, não quando ficar mais velho.
– Chorar por causa de que?
– Por causa do inferno pelo qual algumas pessoas fazem as outras passarem sem nem pensar. Por causa do inferno pelo qual os brancos fazem os negros passarem, sem nem sequer pararem para pensar que eles também são gente.” O sol é para todos, págs. 250 e 251.

Personagens como Atticus, que mostra sempre que o melhor caminho a ser seguido não é o da raiva e sim o caminho da solidariedade, da bondade e do perdão; Boo Radley, que é mal interpretado e muitas vezes julgado de forma cruel e errônea, apesar de nunca fazer mal as outras pessoas; Calpúrnia, a cozinheira negra que poderia muito bem ser apenas uma serviçal nos olhos da sociedade da época, mas que sempre teve um papel importante na vida da família Finch, não só educando Jem e Scout e os ensinando a ler, mas instruindo-os moralmente; Sra. Debose, que, apesar de muitas vezes ser uma pessoa difícil de conviver, mostra-nos a melhor forma do conceito de coragem; e a Srta. Maudie, que sempre consegue ver o lado positivo, mesmo nos momentos em que tudo parece estar rodeado de coisas negativas, trazem reflexões e ensinamentos que devem ser levados para toda a vida.

“(…) (Sr. Dubose) tinha sua própria opinião sobre as coisas, talvez muito diferente das minhas (…). Queria que você a conhecesse um pouco, soubesse o que é a verdadeira coragem, em vez de pensar que coragem é um homem com uma arma na mão. Coragem é fazer uma coisa mesmo estando derrotado antes de começar – continuou Atticus. – E mesmo assim ir até o fim, apesar de tudo. Você raramente vai vencer, mas às vezes vais conseguir.” O sol é para todos, pág. 143

De leitura rápida, fácil e viciante, O Sol é para todos é um livro obrigatório na vida de todo leitor. Ele vai te transformar de uma forma linda, sublime e maravilhosa, de modo que você só irá perceber o quanto mudou ao ler as últimas páginas da obra.

Se você ainda assim não se convenceu que deve parar tudo que está fazendo nesse exato momento para começar a ler O sol é para todos, deixo aqui um vídeo super legal do John Green feito para um de seus projetos no youtube, o Crash Course, em que ele fala mais sobre o livro:

AVISO: spoilers gigantescos entre 3:28 e 4:41 e spoilers menores (mas ainda assim spoiler) entre 10:16 e 10:57.

E para aqueles que se interessaram pela história e querem saber um pouco mais, mas por algum motivo desconhecido não querem ler, seus problemas acabaram! A netflix tem no seu acervo o filme lançado em 1962. Apesar de não conter uma das minhas cenas favoritas do livro (</3), o filme é bem adaptado. Várias vezes, deparei-me com trechos do livro sendo fielmente citados enquanto a história é contada.

Trailer de 1962. Infelizmente, a qualidade não tá muito boa, mas decidi colocar mesmo assim só pra vocês terem uma prévia dele. 😉

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3 comentários sobre “Livro: O Sol é para todos – To Kill a Mockingbird

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