Livro: Vá, coloque um vigia

Recentemente, eu fiz uma resenha sobre “O sol é para todos”, falando do meu amor por esse livro. Bem, um pouco depois de lê-lo, eu decidi ler a sua “continuação”, chamada “Vá, coloque um vigia” que foi oficialmente lançada em inglês apenas em julho desse ano com o título original “Go set a watchman”, 55 anos após o lançamento de O sol é para todos, chegando ao Brasil pela editora “José Olympio” em outubro desse ano. Porém, diferente dos sentimentos maravilhosos que eu senti ao ler o primeiro livro, a continuação dele só me trouxe sentimentos de angústia, raiva e decepção.

            Antes de qualquer coisa, é importante deixar aqui um esclarecimento sobre a polêmica que gira em torno da publicação desse livro, que foi escrito antes mesmo de “O sol é para todos”. Harper Lee, a autora das duas obras, vive hoje, aos 89 anos, em uma clínica para idosos, com sua saúde bastante debilitada, o suficiente para criar especulações sobre a publicação de sua mais nova obra. Acontece que, na época em que ela publicou a sua primeira obra, a autora deixou bastante claro que não gostaria de voltar a publicar. Contudo, justamente agora, que a autora já não tem mais condições de dar um consentimento para a publicação de qualquer coisa de sua autoria e que sua irmã, que cuidava dos direitos autorais dela, faleceu, uma continuação para sua obra-prima é lançada. Por causa disso, acredita-se que a advogada da autora, Tonja Carter, agora a nova pessoa que cuida dos direitos autorais dela, teria se aproveitado das condições atuais de Harper Lee para publicar a obra sem o seu consentimento. Aparentemente, o livro é um compilado de passagens que a autora escreveu mais ou menos na mesma época da criação de O sol é para todos e que não pareciam se encaixar na história. Porém, não se sabe ao certo quem reuniu esses trechos e o transformou em um livro.

            Levando tudo isso em consideração, fica a dúvida: será que um livro cuja própria autora não quis publicar pode ser mesmo tão bom quanto sua obra-prima, anteriormente publicada? Para mim, a resposta é bem simples e clara: não.

            O livro, agora contando a história da Scout não mais pelo seu ponto de vista, mas em terceira pessoa, se passa quase vinte anos depois dos acontecimentos em “O sol é para todos” e praticamente coloca por terra tudo que foi construído no primeiro livro. Primeiramente, as coisas são jogadas na cara do leitor logo nos primeiros capítulos, sem nenhuma preparação ou explicação imediata para o que aconteceu no intervalo de tempo entre o primeiro e o segundo livro.

            Scout agora é uma jovem mulher morando Nova York, voltando para Maycomb apenas nas suas férias para cuidar de seu pai, agora em uma nova casa, onde apenas Atticus e Alexandra moram, com Calpúrnia não mais servindo a família e Jem (PREPAREM-SE PARA UM PEQUENO SPOILER) morto. Sim, querido leitor, nosso amado Jem, tão inteligente e gentil, aparentemente morreu do nada e isso é jogado na nossa cara logo na página 16:

“Mais ou menos nessa época, um belo dia, o irmão de Jean Louise morreu de repente e, depois que esse pesadelo acabou, Atticus, que sempre pensara em deixar o escritório para o filho, passou a procurar um jovem substituto.”

(FIM DO SPOILER)

Outro personagem querido que foi apenas citado em passagens dessa “continuação” é Dill, o garotinho que nas férias de verão visitava sua tia, srta. Rachel Haverford, vizinha dos Finch, e passava todo esse período brincando com Scout e Jem. Boo Hardley então, personagem importante que era alvo da imaginação do trio de crianças em “O sol é para todos”, é totalmente esquecido.

Além dos desaparecimentos e completa desconsideração por alguns personagens do primeiro livro, foi introduzido um novo personagem à história: Henry Clinton. Henry é um garoto que aparentemente surge um pouco depois do fim da história de “O sol é para todo”, indo morar em uma pensão que ficava de frente para a casa dos Finch aos 12 anos, tornando-se amigo de Jem e Scout e grande afeto de Atticus, passando a ser de grande importância em “Vá, coloque um vigia”.

Já o Atticus Finch, pai da Scout, encontra-se totalmente diferente daquilo que nos foi apresentado no primeiro livro. Agora já mais debilitado, com alguns problemas de saúde, a descrição do personagem vai totalmente de encontro ao que foi nos apresentado para a construção de caráter do personagem no livro anterior. Aquele defensor da igualdade para todos, que lutava por uma causa mesmo sabendo que ela já estava perdida só por saber que aquilo era o certo, não existe mais. Agora, o Atticus é uma pessoa que possui um pensamento retrógado semelhante ao da maioria dos habitantes de Maycomb, que se baseia no pensamento de que os negros estão querendo tomar o lugar dos brancos da sociedade e que, por causa disso, estão muito “rebeldes” e devem ser separados da comunidade branca. Ver o Atticus dessa maneira causa um sentimento de decepção, que faz você pensar que a frase “ninguém é perfeito” nunca pareceu tão verdadeira até esse momento.

O título do livro é na verdade uma referência a um versículo da Bíblia (Isaías 21:6): “Assim me disse o senhor: “Vá, coloque um vigia, para que anuncie o que está por vir!””. Esse versículo foi tomado como base por todos os países que vão traduzir a obra para a determinação do título.

Ao longo do livro, o leitor vai percebendo que esse vigia é uma metáfora para a própria consciência:

“(…) Ontem o sr. Stone colocou um vigia na igreja. Devia ter me dado um também. Preciso de um vigia que me guie e me diga o que ele vê, hora após hora. Preciso de um vigia que me diga que um homem diz uma coisa, mas na verdade quer dizer outra. Que trace uma linha divisória e diga que de um lado está uma justiça e do outro lado outra, e me faça entender a diferença. (…)” Vá, coloque um vigia, págs. 167 e 168.

Junto com a Scout, que também não consegue entender como a cidade que ela amava tanto pode ter mudado de uma forma tão drástica que não lembra em nada aquela cidade que ela viveu durante toda a infância e parte da adolescência, o leitor vai descobrindo mais sobre o que se passa com os habitantes de Maycomb.

“(…)Tem alguma coisa errada comigo, o problema é comigo. Tem que ser, porque todas essas pessoas não podem ter mudado assim. (…) Tudo o que sei sobre o que é certo ou errado aprendi com essas pessoas… essas mesmas pessoas. Portanto, o problema sou eu, não elas. Alguma coisa aconteceu comigo.
Estão todos querendo me dizer, como um estranho eco, que a culpa é toda dos negros… Mas é tão certo que a culpa é dos negros quanto é certo que eu posso voar. (…)” Vá, coloque um vigia, pág. 155.

Ao longo da história, nós vamos acompanhando o quanto a Scout, talvez a única personagem que permanece íntegra nas suas convicções e pensamentos, amadureceu, tornando-se uma mulher forte que luta pelo que acredita independente do que os outros acham. Creio que essa é a única parte que acalmou meu coração durante a leitura do livro.

O livro ao todo é angustiante e só vale a pena se você considerar que ele faz você se indagar e refletir sobre o cenário existente naquela época. Porém, creio eu, é totalmente decepcionante para qualquer pessoa que leu “O sol é para todos” e o amou tanto quanto eu. Por isso, fica aqui minha dica: se você quer ler o livro e saber mais sobre toda essa polêmica que gira em torno da história, tente não criar uma grande expectativa em relação a ele, porque ele com certeza não tem o mesmo nível de qualidade que “O sol é para todos” tem. Com muitas pontas soltas, sem um grande desenvolvimento, o livro passa a sensação de que está inacabado e que foi publicado apenas para se ganhar dinheiro em cima do nome da autora, o que, infelizmente, é algo extremamente provável de ser verdade.

Caso você já tenha lido o livro e discorde/concorde com a minha opinião sobre ele, deixa aqui um comentário para que a gente possa discutir mais sobre essa história!

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5 comentários sobre “Livro: Vá, coloque um vigia

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