Livro: Objetos Cortantes

Objetos cortantes, lançado em 2007, foi a estreia de Gillian Flynn, escritora e ex-crítica de cinema e TV na Entertainment Weekly. Ela escreveu apenas mais dois livros (infelizmente), Lugares Escuros (que não li, mas pretendo) e, sua obra mais conhecida, Garota Exemplar, cuja adaptação para o cinema ganhou vários prêmios e no Oscar 2015, concorreu ao prêmio de melhor atriz, com Rosamund Pike. A autora tem um estilo bem consistente de suspense com personagens extremamente inteligentes e histórias bem construídas.

Camille Preaker é uma jornalista de Chicago que saiu de uma cidade muito pequena, aquelas onde todo mundo sabe tudo sobre todos, que você acaba amando ou odiando e, no caso da personagem principal, a segunda opção é a mais certa. Depois de oito anos distante da cidade e da família, ela nunca pensou que fosse voltar a Wind Gap até que o editor do jornal onde trabalha a manda até lá para investigar o assassinato de uma menina e o sequestro de outra. Com poucos recursos, ela é obrigada a ficar na casa da família, com uma mãe neurótica, uma meia irmã que não conhecia, um padrasto cuja presença é ignorável e a sombra da irmã que morreu anos atrás, deixando um rastro de sofrimento, um dos fatores que resultou nas várias cicatrizes que Camille tem pelo corpo, as palavras que ela cortou em si mesma.

“Eu me corto, sabe? E pico, e fatio, e gravo e furo. Sou um caso muito especial. Eu tenho determinação. Minha pele grita, vê? Está coberta de palavras – cozinha, cupcake, gato, cachos -, como se um garotinho com uma faca tivesse aprendido a escrever em minha pele. (…) Por que essas palavras? Milhares de horas de terapia forneceram algumas ideias dos bons médicos. Elas são com frequência femininas, como cartilhas de alfabetização e canções de ninar. Ou explicitamente negativas. Número de sinônimos para ansiosa gravados em minha pele: onze.” Objetos cortantes, pág. 66 e 67.

Como a policia a mantém de fora, ela não consegue muitas informações sobre o acontecido, o que a faz investigar por conta própria. Como essas meninas estavam sendo escolhidas? Pela idade, personalidade? Tinha de fato uma conexão entre os incidentes? Para descobrir alguma coisa que se transforme em uma boa matéria, ela se vê obrigada a conversar com as pessoas do seu passado e adentrar ainda mais na vida que ela decidiu deixar pra trás, descobrindo mais, não só sobre os crimes cometidos, mas também sobre sua família.

[SPOILER]

Aqui eu vou falar sobre o final, então se não quiser saber, pare de ler agora!

Podemos dizer que o problema maior foi a mãe, Adora, pois ela tem MPP, Munchausen por Preocupação. Diferente de quem tem Síndrome de Munchausen, que fica doente para chamar a atenção para si, quem tem MPP, normalmente uma mãe, mas também pode ser algum outro responsável, deixa sua criança doente com o mesmo propósito, dando a impressão de ser um guardião gentil e atencioso. Por esse motivo, Adora só tinha carinho pelas suas filhas quando elas estavam doentes, mesmo que fosse necessário que ela mesma causasse as doenças. O que fez com que Camille escapasse desses cuidados terríveis foi sua personalidade muito forte e sua teimosia em tomar os remédios que Adora conseguia dar com facilidade a sua irmã, Marian. Dessa forma, Adora perdeu o interesse em Camille e só se portava como sua mãe quando na frente de outras pessoas. Mas Marian, mais jovem e mais doce, não recusava nem fugia dos cuidados da mãe e acabou morrendo quando as duas ainda eram crianças. Já Amma, que tem treze anos quando Camille volta a Wind Cap, mesmo com o jeito egoísta, instável, mimado e até um pouco macabro, consegue se comportar como a filha que sua mãe queria dentro de casa e, como Marian, ela fica doente com muita frequência.

Adora nunca amou Camille e, anos depois, tentou entendê-la se aproximando das crianças envolvidas nos incidentes, Ann e Natalie, como tutora, já que as duas meninas eram voluntariosas como sua filha. Mas ambas foram encontradas mortas e com os dentes arrancados, o que fez com que Adora se tornasse a principal suspeita para a polícia, para Camille e para o leitor. E, em uma busca pela casa, a polícia encontrou os comprimidos que Adora usava para envenenar suas filhas e um alicate com vestígios do sangue das meninas e, apesar de não terem encontrado nenhum dente, Adora foi presa e Camille voltou para Chicago com Amma. Estava indo tudo bem, até que, em Chicago, uma amiga que Amma havia feito apareceu morta e sem dentes.

A questão é que Amma adorava toda a atenção que tinha da mãe e, por causa do ciúmes, ela sequestrou e matou as duas crianças das quais a mãe estava tentando se aproximar. Agora, em relação aos dentes… Camille e sua família moravam em uma mansão grande, bonita e até famosa, pois o piso de marfim da suíte principal já tinha sido notícia em uma revista, e Amma possuía uma réplica em miniatura da casa, na qual queria que tudo fosse perfeito. Pra quem não sabe, marfim é um material que vem de presas de animais, como o elefante e o hipopótamo, então qual é o melhor jeito de fazer uma réplica desse material que não com pequenos dentes?

“Assim que tirei a grande cama de dossel de minha mãe e destruí sua penteadeira, Amma gritou, ou eu gritei. Talvez ambas. O piso do quarto de minha mãe. As belas placas de marfim. Feitas de dentes humanos. Cinquenta e seis dentinhos, limpos, alvejados e brilhando no piso.” Objetos Cortantes, pág. 246

É muito fácil criar suas próprias suposições sobre quem matou as meninas, mais pro final do livro eu tinha certeza absoluta que tinha sido a mãe da Camille e quando ela foi presa por esse motivo, fiquei meio frustrada, como poderia ser tão obvio? Mas,  quando mostram que foi Amma quem matou, o fato de ela nunca ter tentado se proteger do assassino fez sentido e se encaixa naquela personalidade doentia que ela parecia ter na maior parte do livro.

[FIM DO SPOILER]

Eu realmente estou virando fã da Gillian Flynn, eu sei, eu sei, só li dois livros dela, mas já foi a maioria! Eu achei Garota Exemplar melhor e mais bem definido, como se ela tivesse melhorado sensivelmente a escrita nesses livros, mas Objetos Cortantes é muito bom, um livro que realmente me prendeu, eu não tive paz enquanto não cheguei ao final. É importante dizer: não é um livro muito feliz, todos os personagens têm diferentes níveis de “loucura”, as crianças de treze anos são bastante adiantadas pra idade e o final é surpreendente, apesar de não muito impactante, a meu ver.

Bom, é isso, agora é só esperar a resenha dos outros dois livros dela! ❤

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4 comentários sobre “Livro: Objetos Cortantes

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