Livro: Fahrenheit 451

“Às vezes pode levar uma vida inteira para um homem colocar seus pensamentos no papel, depois de observar o mundo e a vida, e aí eu chego e, em dois minutos, bum! Está tudo terminado.” Fahrenheit 451, pág. 74

Fahrenheit 451 é um livro distópico que foi publicado em 1953, pelo autor Ray Bradbury.

Muitos anos se passaram desde que todas as casas receberam um fino revestimento plástico à prova de fogo, tornando inútil a antiga função dos bombeiros de apagar incêndios. Agora, ao invés deles conterem incêndios acidentais, eles os causam, com o intuito de destruir os vestígios remanescentes de livros que permanecem escondidos nas casas de algumas pessoas que ainda os apreciam. Com chamas incandescentes na temperatura de 233º Celsius (ou 451 Fahrenheit), temperatura necessária para a queima do papel, eles incineram não só os livros, mas também tudo ou todos que estiverem no seu caminho.

Com o decorrer do tempo, a população da terra foi crescendo desordenadamente, aumentando, consequentemente, o número de minorias na terra. Com o aumento dessas minorias e o desejo de agradar a todas elas, os livros começaram a ser destruídos aos poucos, por vontade da própria população, e não por causa de algum decreto ou lei criados pelo governo, como era de se pensar.

“Os negros não gostam de Little Black Sambo. Queime-o. Os brancos não se sentem bem em relação à Cabana do pai Tomás. Queime-o. Alguém escreveu um livro sobre o fumo e o câncer de pulmão? As pessoas que fumam lamentam? Queimemos o livro.” Pág. 83.

Além disso, a impaciência e o desejo por obter tudo da forma mais rápida e fácil possível foram aos poucos reduzindo tudo o que era entregue para as massas, que foram ficando cada vez mais preguiçosas e viciadas no prazer, afastando-se gradativamente de qualquer tipo de preocupação ou sentimento que os pudesse levar a infelicidade.

“Clássicos reduzidos para se adaptarem a programas de rádio de quinze minutos, depois reduzidos novamente para uma coluna de livro de dois minutos de leitura”. Fahrenheit 451, pág. 77

“Resumos de resumos, resumos de resumos de resumos. Política? Uma coluna, duas frases, uma manchete! Depois, no ar, tudo se dissolve! (…) A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias e as línguas são abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e, por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é que conta, o prazer está por toda parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas?” Fahrenheit 451, pág. 78

Aos poucos, pensar, conversar uns com os outros e refletir sobre tudo e qualquer coisa se tornaram ações que foram sendo tiradas da sociedade. A convivência com as pessoas foi se tornando cada vez mais rara e o conceito de família foi substituído por telas de televisão cuja programação é entregue em todas as casas para que os telespectadores possam interagir com os programas sem precisar pensar.  Os atores que aparecem dia e noite nas telas e interagem com as pessoas são considerados os verdadeiros parentes de todos. Não existe mais amor ou empatia por nada ou ninguém. Interagir pessoalmente com qualquer ser vivo passa a ser algo raro e quase que inimaginável.

“E os tios, as tias, os primos, as sobrinhas, os sobrinhos que viviam nessas paredes, o bando alvoroçado de macacos que não diziam nada, nada, nada, e que falavam muito, muito alto, altíssimo. Ele fora levado a chamá-los de parentes desde o princípio.” Fahrenheit 451, pág. 66

A guerra passa a ser um elemento constante na vida das pessoas. Sempre se está em um período de guerra ou entre elas, tornando essa situação quase banal. As pessoas estão tão focadas em si mesmas que não se importam com o que está acontecendo ao redor.

“Desde 1990, já fizemos e vencemos duas guerras atômicas! Será porque estamos nos divertindo tanto em casa que nos esquecemos do mundo? Será porque somos tão ricos e o resto do mundo tão pobre e simplesmente não damos a mínima para sua pobreza? Tenho ouvido rumores; o mundo está passando fome, mas nós estamos bem alimentados. Será verdade que o mundo trabalha duro enquanto nós brincamos? Será por isso que somos tão odiados?” Fahrenheit 451, págs 97 e 98.

“— Quando vocês acham que a guerra irá começar? — disse ele. — Notei que seus maridos não estão aqui hoje.
— Ah, eles vão e voltam, vão e voltam — disse a sra. Phelps. — Finnegan vive indo e voltando. O Exército chamou Pete ontem. Ele estará de volta na semana que vem. Assim disse o Exército. Uma guerra rápida. Quarenta e oito horas, segundo disseram, e todos estarão de volta para casa.” Fahrenheit 451, pág. 121.

É nesse mundo que vive Guy Montag, um dos bombeiros que incendeia livros ao receber chamadas anônimas dizendo onde eles estão. Montag vive uma vida supostamente feliz com sua mulher, Mildred, regozijando-se toda vez que invade uma casa e queima pilhas e pilhas de livros. Porém, tudo isso muda depois que ele conhece Clarisse, uma garota de 17 anos diferente da maioria das pessoas.

Ao contrário da maioria, Clarisse e sua família conversam, riem, gostam de andar pelo simples prazer de andar e estar ao ar livre, observam a natureza e se importam uns com os outros. Tal comportamento intriga Montag, que começa a fazer questionamentos sobre o mundo em que vive. Com a ajuda de Clarisse, Montag vai descobrindo algumas coisas do passado daquela sociedade que fazem com que ele mude seu ponto de vista em relação a vida que possui.

Uma característica que me impressionou no autor foi a capacidade de trazer ritmo a uma cena apenas com a repetição de um som ou palavra, tornando o momento dinâmico de um modo psicológico, com apenas alguns recursos.

“Uma gota de chuva. Clarisse. Outra gota. Mildred. Uma terceira. O tio. Uma quarta. O fogo de hoje à noite. Uma, Clarisse. Duas, Mildred. Três, tio. Quatro, fogo. Uma, Mildred, duas, Clarisse. Uma, duas, três, quatro, cinco, Clarisse, Mildred, tio, fogo, pílulas para dormir, homens-lenços descartáveis, fraldas de camisas, assoar, limpar, dar descarga, Clarisse, Mildred, tio, fogo, pílulas, lenços, assoar, limpar, dar descarga. Uma, duas, três, uma, duas, três! Chuva. A tempestade. O tio rindo. Trovão descendo céu abaixo. O mundo inteiro se derramando em água. O fogo jorrando num vulcão. Tudo se apressando numa enxurrada estrondosa e fluindo como rio rumo à manhã.” Fahrenheit 451, pág. 36

O livro, apesar de possuir poucos personagens, consegue apresentar os diferentes tipos de pessoas presentes nessa sociedade distópica. Nas personagens femininas, encontramos Mildred e Clarisse. Em Mildred, esposa de Montag, encontramos representado a maioria da pessoas que vivem nesse ambiente, cujas vidas se resumem em assistir programas rasos na televisão, divertir-se e não pensar ou praticar qualquer ação que possa trazer sentimentos negativos. Em Clarisse, a jovem vizinha de Montag, encontramos as pessoas que, de algum modo, conseguiram não ser afetadas pelo novo modo em que a sociedade vive, mantendo dentro de si mesmas o restante de humanidade que ainda sobrou.

Já entre os personagens masculinos, temos Faber e Capitão Beatty. Em Faber, professor formado em inglês que um dia se encontra com Montag em uma praça e começa a conversar, ato não mais praticado pelas pessoas, podemos encontrar as pessoas que presenciaram a transformação da sociedade até ela se consolidar nas características atuais e que, apesar de amar os livros e sentir saudades dos tempos passados, vivem calados e se mantêm escondidos por causa do medo de quaisquer represálias. Já no capitão Beatty, chefe do corpo de bombeiros onde Montag trabalha, encontramos as pessoas que, apesar de terem contato com os livros e os conteúdos propagados por eles (sendo diferentes das outras pessoas simplesmente por possuírem conhecimento e capacidade de pensar), gostam da sociedade do jeito que ela se encontra e lutam por mantê-la do jeito que está, propagando o pensamento de que os livros são inúteis e não passam de mentiras.

“— Você conhece a lei — disse Beatty. — Onde está seu bom senso? Não há o menor acordo entre esses livros. Você ficou trancada aqui durante anos com essa malfadada Torre de Babel. Saia dessa situação! As pessoas nesses livros nunca existiram. Agora vamos!” Fahrenheit 451, pág. 59

Todos esses personagens influenciam Montag, o personagem principal da trama, e é de acordo com a personalidade de cada um que Montag terá que escolher qual caminho seguir.

O livro é narrado em terceira pessoa e é dividido em três partes. Uma coisa diferente da maioria dos livros é a ausência de capítulos, o que torna a leitura um pouco cansativa em alguns momentos.

Na primeira parte do livro, o personagem principal, Montag, é introduzido, e, através dele, conhecemos mais sobre o corpo de bombeiros e a atividade exercida por eles. Além disso, conhecemos Clarisse e observamos as transformações que vão ocorrendo em Montag por causa dela. A segunda parte abrange as escolhas feitas por Montag por causa das transformações ocorridas em seu modo de pensar, com as consequências dessas ações sendo apresentadas na terceira e última parte.

Embora eu tenha gostado do livro como um todo, não fiquei muito satisfeita com o modo como as coisas ocorreram no final. Pareceu-me que tudo foi arremessado na cara do leitor. Creio que o desejo do autor era nos apresentar uma reviravolta que nos surpreendesse de um modo tão devastador e rápido como ocorreria se tudo que estivesse acontecendo no livro ocorresse no mundo real.

Mesmo assim, apesar da terceira parte ser a que possui mais ação, ela foi a que menos me chamou a atenção. Creio que isso se deve principalmente ao fato do livro ser muito mais teórico do que prático, não apresentando, desse modo, cenas dinâmicas em que os personagens se enfrentam em um combate ou algo do tipo. As cenas que realmente prendem o leitor são cenas em que ocorrem grandes diálogos, principalmente quando eles tratam do modo a qual a sociedade vive agora e de como ela chegou a esse ponto.

É incrível perceber que uma obra escrita na década de 50 consegue trazer algumas questões que podem ser encontradas nos dias atuais em nossa sociedade. Parece que o rumo que a sociedade estava tomando era tão óbvio que poderia ser previsto por escritores décadas antes de tudo acontecer realmente. O autor não especifica em nenhum momento o local onde a história ocorre, dando ao leitor a sensação de que ela pode acontecer em qualquer lugar do mundo, o que torna tudo mais assustador.

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2 comentários sobre “Livro: Fahrenheit 451

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