Coleção Pajeú: Benfica

Escrito por Arlene Holanda, (graduada em História, e, além de escritora, editora, educadora, ilustradora e designer. Tem mais de 50 livros publicados, entre literatura didáticos e obras complementares), o livro do bairro Benfica traz recortes de memórias da autora, que morou em dois momentos diferentes do bairro.

A autora divide o livro em várias partes, começando o livro contando a versão do cronista Fernão Lopes para a origem do nome do bairro português cujo o nome acabou sendo trazido e replicado para as terras fortalezenses:

“Maria Rousada vivia na aldeia de Benfica. Era casada, mas antes do matrimônio, o marido a “rousara” – termo correspondente a estuprara –, vindo daí o apelido “rousada”. Apesar da violência sofrida inicialmente Maria e o agressor, agora marido, viviam em harmonia – o casal e os vários filhos que tiveram. O crime de estupro, no entanto, era motivo de condenação à morte no Portugal da época. Mesmo tendo o agressor desposado sua vítima, não o isentava de tal punição. Mas como nunca tinha havido denúncia alguma, o marido de Maria ficara impune.

Anos se passaram. O assunto era quase sepultado, quando um dia o Rei, em visita a aldeia, ao ouvir o nome da tal mulher, ficou curioso e perguntou o motivo do apelido. Os aldeões contaram-lhe a história e imediatamente o soberano exigiu que a lei fosse cumprida, ordenando o enforcamento do esposo da Maria Rousada. A mulher e os filhos rogaram em vão por clemência. Chegado o dia da execução, foi grande a comoção de Maria e seus rebentos, carpindo dolorosamente em cortejo ao condenado. O chororô foi tanto que chocou alguns membros da comitiva real; chegaram a insinuar que o Rei teria sido rigoroso demais. Condoeram-se pela mulher, comentando o quanto ela ficara mal. O Rei não apreciou ser contestado (como todo rei), e em resposta disse: “Bem fica!”. Arranjou um casamento para Maria Rousada e deu-lhe um dote considerável, de modo que ela e seus filhos “bem ficaram”. – Pág. 15

Já o Benfica de Fortaleza nasceu com o português João Antônio do Amaral, um dos primeiros a construir na região, fincando no terreno a Chácara Benfica – que deu nome ao bairro. O português tinha um projeto de construir um templo consagrado à senhora dos Remédios, projeto que foi realizado em 1910 por sua esposa após sua morte. A partir daí, o crescimento do bairro ocorreu ao redor da igreja de Nossa Senhora dos Remédios, com construção de casas e formação de vilas, vielas e caminhos no seu entorno, sendo ocupadas por famílias abastadas que se mudavam do Centro para começar uma nova vida.

Conforme ia crescendo, na década de 30, o bairro passou a ser um dos mais ricos de Fortaleza (ao lado de Aldeota e Jacarecanga), sendo o lar, dentre várias outras famílias de elite, da família Gentil, família de grandes posses na região, detentora de terrenos onde foram construídos o palacete da família, vilas de casa para aluguel, Clube Social Gentilândia, dentre outros.

Com a chegada da Universidade Federal do Ceará, em 1954, a interação dos moradores com o bairro foi se modificando e o espaço foi se transformando. Onde havia o palacete dos Gentil foi construído a Reitoria, que manteve as linhas arquitetônicas da antiga construção.

Uma das minhas partes favoritas do livro é o capítulo em que trata do Patrimônio do Bairro. A autora fala do total descaso da preservação de casas históricas que ocorre não só no Benfica, como em outros bairros da cidade, vítimas de herdeiros que não parecem se importar com o seu destino.

“É comum ouvir-se que Fortaleza é uma cidade sem memória: prédios históricos e casarões parecem sucumbir um a um, sem ficar um exemplar que lhes sirva de testemunho de épocas mais glamorosas. Assim tem sido no Centro, no Jacarecanga, na Aldeota, e como não podia deixar de ser, no Benfica.” – pág. 31

Duas das demolições que marcaram o bairro foram a da casa do escritor, cientista e humanista Rodolfo Teófilo e a da Chácara Flora, que, apesar da comoção popular e da mobilização da imprensa para conseguir o tombamento dos imóveis, não conseguiram resistir ao tempo e a especulação imobiliária.

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Casa do Rodolfo Teófilo. Fonte: Fortaleza em fotos . Acesso em: 07/11/15

Diferente da Residência de Rodolfo Teófilo, os proprietários da Chácara Flora responsáveis por demoli-la foram impedidos de fazer qualquer intervenção no local, além de terem que pagar uma multa e responder criminalmente pela ação.

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Chácara Flora, demolida em 30/12/11, apesar de se encontrar em processo de tombamento. Fonte: Fortaleza em fotos . Acesso em: 07/11/15.

Porém, nem todas essas construções foram botadas abaixo. Alguns dos imóveis que ainda permanecem de pé nos dias atuais, muitos dos quais são preservados pela UFC, foram citados pela autora: o bangalô onde funciona a Casa de Cultura Alemã, a Casa Amarela Eusélio Oliveira, o Solar das Liras, o Instituto das Filhas de São José.

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Casa de Cultura Alemã. Fonte: https://goo.gl/2C4tf1. Acesso em: 07/11/15.
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Casa Amarela. Fonte: https://goo.gl/zGFJxv. Acesso em: 07/11/15
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Solar das Liras, hoje ocupado pela Loja Maçônica Luiz Moraes Correia. Fonte:  Fortaleza em fotos. Acesso em: 07/11/15
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Instituto das Filhas de São José. Fonte: Diário do Nordeste. Acesso em: 07/11/15

A autora também fala sobre importantes espaços do Bairro como: Estádio Presidente Vargas; a feira livre do Benfica, que, apesar do crescimento e grande concorrência com os supermercados, ainda sobrevivem; bodegas, mercadinhos e bares; e o Shopping Benfica, construído num terreno pertencente ao extinto grupo Romcy, que possuía uma obra inacabada há tempos no local.

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Shopping Benfica. Fonte: http://goo.gl/h1ACn0. Acesso em: 07/11/15.

“O Shopping Benfica se inscreve no cenário dos empreendimentos comerciais similares com algumas singularidades. Mantêm atividades culturais, como exposições, aulas de arte, sala de leitura e apresentações musicais desde o início do seu funcionamento. (…) Na inauguração do Shopping foi realizada uma exposição com fotografias antigas do Benfica. Uma farta documentação iconográfica sobre os casarões do bairro e seus moradores, com destaque para os membros da família Gentil. Algumas lojas ainda não alugadas foram cedidas temporariamente a associações de artesãos, que ali vendiam seus produtos. (…) Intencionalmente ou não, o Shopping Benfica parece ter se incumbido da missão de substituir as praças como lugar de socialização no bairro. Eventos como pré-carnaval, festas juninas e natalinas foram incorporados à programação do Shopping.” págs 69 e 70.

E você? Conhece mais alguma curiosidade sobre o bairro? Comente nesse post ou nas páginas do Instagram ou do Facebook o que você sabe sobre o bairro Benfica! Lembrando que, para quem quiser ter acesso aos livros dos quais estamos tirando essas maravilhosas histórias, é só acessar site da Secretária de Cultura de Fortaleza, que disponibilizou os pdfs de grande parte dos livros da coleção Pajeú. Boa leitura!

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