Coleção Pajeú: Jacarecanga

O livro “Jacarecanga” foi escrito por Cláudia Leitão, graduada em Direito pela Universidade Federal do Ceará e em Educação Artística pela Universidade Estadual do Ceará, que fala um pouco dos aspectos do bairro conforme as lembranças coletadas por ela em sua infância, época em que morou no bairro, e as informações adquiridas durante a vida.

Já nas primeiras linhas do livro, a autora faz citação a um caso que ocorreu em janeiro de 1994, quando foram encontradas algumas ossadas enterradas sob o asfalto do bairro:

“Em janeiro de 1994, operários encarregados das obras do Serviço de Saneamento de Fortaleza- Sanear- encontraram sob o asfalto da Rua Adriano Martins, no bairro da Jacarecanga, centenas de ossadas humanas, sepultadas em vala comum e cova rasa. A comparação foi inevitável; era como se um misterioso campo de concentração nazista houvesse sido descoberto bem próximo ao centro de Fortaleza […] Descobriu-se que os operários do Sanear haviam localizado parte de um cemitério histórico, onde foram enterrados milhares de mortos pela varíola, a terrível peste que assolara Fortaleza no final do século XIX. Lira Neto”, Jacarecanga, pág. 9.

Tomando esse incidente como foco, em seguida, no capítulo “Jacarecanga e a Memória do Passado”, a autora discute um pouco o significado e a importância da memória, para assim poder começar a falar sobre as memórias que possui, sem omitir nada, por mais negativo que possa parecer:

“O que á a memória? Ou para que ela serve? Memória é lembrança, mas é também esquecimento. Daí sua importância na construção de nossas subjetividades. Sou o que lembro, mas também sou aquilo que esqueço, ou o que não quero lembrar. (…) A obsessão de se construir uma “memória branca”, que nos impede de “voltar à cena do crime”, é a responsável por retirar de nós a anima do viver.(…) Ao escrever sobre Jacarecanga, não produzo “memórias brancas”. Pelo contrário, elas estão carregadas, impregnadas e atravessadas por vozes, cheiros, gostos, lugares, sensações, sentimentos e afetos.” Jacarecanga, págs. 11,12 e 14.

A história do bairro Jacarecanga se inicia por volta de 1910, quando começou a ser povoado por chácaras, não muito distantes do mar, por se tratar de um espaço considerado “lugar de veraneio”. Porém, a partir de 1940, Jacarecanga deixa de ser vista apenas como um lugar de lazer, tornando-se moradia das famílias abastadas que vinham do Centro para fugir do aumento de suas atividades comerciais. Essa famílias foram as  principais responsáveis pelo processo de desenvolvimento e embelezamento do bairro, pois, ao chegarem nele, realizavam encomendas de plantas específicas de diferentes tipos arquitetônicos para suas casas, o que dava uma maior diversidade para o lugar. Levando essas construções em consideração, podemos destacar a do engenheiro e antropólogo Thomaz Pompeu Sobrinho, que ergueu, em 1929, uma mansão na avenida Francisco Sá, número 1801, com estilo art nouveau, que se tornou, nos dias atuais, a Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho.

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Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho

Junto com os palacetes, vão surgindo gradativamente no bairro espaços públicos, indústrias, vilas operárias, instituições religiosas,  educacionais, que fazem com que a qualidade de vida em Jacarecanga aumente.

Mas não só de mansões vivia Jacarecanga. Muitos bangalôs foram instalados no lugar, sendo a maioria da família Philomeno Gomes (que, junto com a família Gentil, poderia simbolizar o processo de industrialização do Ceará), que os alugavam para diversas famílias:

“Para mim, aquele bangalô era mesmo um “palácio”! Imagine o leitor uma casa que possuía jardim, quintal, passagens secretas, quartos escuros e terraços generosos, de onde se podia avistar o horizonte, mas, sobretudo, empinar arraias! (…)
A casa possuía duas entradas que demarcavam os seus usos, assim como a sua relação com aqueles que a visitavam. A entrada social se fazia por um pátio extremamente acolhedor, cheio de plantas e pequenas árvores, (…) que, por sua vez, conduzia, por uma passagem secreta, ao quintal. A casa convidava as crianças a brincar ao ar livre, e aos adultos, às conversas nas cadeiras de balanço. Pela entrada social, chegava-se ao salão de jantar e à sala da televisão.
 (…) Vale observar que as salas de jantar “oficiais”, nas casas daquela época, eram utilizadas para cafés, almoços e jantares especialíssimos, (…). Na sala das refeições do dia a dia, acontecia o grande movimento da casa.” Jacarecanga, págs. 27 e 28.

A Jacarecanga da década de 60 possuía uma estrutura diferente da atual, sendo composta majoritariamente por vilas e ruas sem saídas, que, além de serem ocupadas o dia inteiro por crianças, que brincavam de esconde-esconde, chicote-queimado, boca de forno e jogos de amarelinha, e adultos, que conversavam entre si e formavam laços de amizades, criavam um lugar perfeito para serenatas feitas por rapazes apaixonados para as suas amadas.

Porém, o bairro Jacarecanga da década de 60 não era apenas a residência de famílias mais abastadas. O Bairro também era constituído por outras comunidades, como o Instituto Bom Pastor, criado com o intuito de abrigar moças que engravidavam sem se casarem, e o Morro do Ouro, comunidade instalada no bairro que, na época, servia principalmente como esconderijo de marginais, que praticavam furtos na região:

“(…) De roupas no varal às galinhas nos quintais, até a entrada nos bangalôs para o furto de joias e dinheiro, os furtos eram maiores ou menores, em função do grau de ousadia do delinquente. (…) Devo ressaltar que não havia violência física naqueles episódios. Os gatunos do Morro do Ouro eram ladrões de galinhas e de roupas no varal (…)” Jacarecanga, págs. 43 e 44.

 Em oposição ao clima tenso do Morro do Ouro, havia o clima pacífico proporcionado pelo Bom Pastor, onde se podia comprar biscoitos de polvilho fabricados pelas moças e freiras que viviam no local:

“Na hora do angelus, bastava abrir as janelas da minha casa para ouvirmos os cânticos entoados por elas durante a missa. Muitas vezes cantavam em latim e, certamente como eu, elas não deviam entender o que cantavam. Mas, havia uma beleza triste naqueles cânticos que entravam pelas janelas naquela hora em que o sol se punha. Com a chegada da penumbra que prenunciava a noite, a aflição que eu sentia encontrava consolo no canto das jovens do Bom Pastor.” Jacarecanga, pág. 45

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Instituto Bom Pastor. Fonte: Arquivo Nirez

Outra construção de grande importância para o bairro foi a “Praça Gustavo Barroso”, conhecida como Praça do Liceu, cercada por instituições importantes tais como o Liceu, o Corpo de Bombeiros e o Instituto Bom Pastor:

“A Praça do Liceu era um espaço de grande sinergia para Jacarecanga. Nela, ainda, eram realizadas solenidades que reuniam os residentes do Bairro (…). Como a Vila, a Praça do Liceu representava, para as crianças, a extensão das nossas casas. Mas para os estudantes, operários e demais habitantes do Bairro, a Praça era um espaço de encontro para protestos, greves, indignações e conclamações que exprimiam os conflitos, os interesses e as insatisfações do Bairro (…).” Jacarecanga, págs. 39 e 40.

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Praça Gustavo Barroso (Praça do Liceu), conhecida anteriormente como Praça Fernandes Vieira.

O Liceu do Ceará, responsável pelo nome popular da praça, foi um grande responsável pela educação artística, cultural e intelectual de muitos cearenses. Símbolo da educação pública na época, o Liceu teve sua primeira sede construída no século XIX na Praça dos Voluntários, no centro de Fortaleza, sendo transferido para Jacarecanga em 1935:

“Grandes nomes do Ceará foram forjados no Liceu, em tempos em que professores eram valorizados, bem remunerados e recebidos pelos governadores da época como autoridades e lideranças. Por outro lado, o colégio era reconhecido pelo rigor nos processos de seleção, tanto dos alunos quanto dos professores.” Jacarecanga, pág. 50.

O Liceu foi de grande importância para os movimentos culturais e políticos que antecederam o golpe militar de 1964:

“A efervescência intelectual que fará nascer (…) o movimento da “Padaria Espiritual”, também estará presente nos debates de natureza ideológica e político-partidária, que acontecerão no Liceu ao longo do século XX.” Jacarecanga, pág. 51

Infelizmente, a partir da década de 60, com o crescimento populacional de Fortaleza, foi-se necessária a criação de novas escolas em diferentes bairros da cidade para promover a educação dos filhos da elite, o que fez com que o Liceu fosse perdendo gradativamente seu lugar na paisagem educacional e cultural da cidade. A decadência do Liceu, infelizmente, trazia consigo a decadência do bairro Jacarecanga, com a migração de muitas famílias para o bairro Aldeota.

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E você? Conhece mais alguma curiosidade sobre o bairro? Comente nesse post ou nas páginas do Instagram ou do Facebook o que você sabe sobre o bairro Jacarecanga! Lembrando que, para quem quiser ter acesso ao livro do qual estamos tirando essas maravilhosas histórias, o site da Secretária de Cultura de Fortaleza disponibilizou a versão digital de grande parte dos livros da coleção Pajeú. Boa leitura!

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