Livro: Estação Onze

“Porque sobreviver não é suficiente.” – Star Trek: Voyager, episódio 122

Estamos nos dias atuais, em um mundo que todos nós conhecemos tão bem, com suas tecnologias, seus celulares, computadores e internet, com a luz elétrica, os eletrodomésticos, as comidas embaladas e vendidas em supermercados, os restaurantes, os bares, as escolas, as universidades, os aeroportos, os shoppings, etc. Há anos vivemos com essa realidade, até o dia em que um vírus desconhecido e letal aparece para dizimar aquilo que conhecemos tão bem.

Arthur Leander é um ator famoso que, aos cinquenta e um anos, tem o prazer de interpretar Rei Lear, personagem principal da conhecida peça Shakespeariana que leva seu nome. Porém, algo não está bem. Durante o quarto ato, Arthur cai durante a cena, em frente a dezenas de pessoas que se encontram na plateia do Elgin Theatre, em Toronto, sendo socorrido por um dos espectadores, Jeevan Chaudhary. Enquanto isso, uma doença vai se espalhando sorrateiramente pelas ruas e avenidas da cidade, apanhando qualquer  um que se atreva a cruzar o seu caminho com suas garras letais.

Tal doença aparecera inicialmente na República da Geórgia, recebendo rapidamente o nome do país, alastrando-se drasticamente por todo o globo através dos voos internacionais que carregavam pessoas infectadas. Ao menor contato com alguém doente, seja por meio de um simples aperto de mão ou até mesmo de uma breve conversa formal, mais e mais pessoas se contaminaram, com dezenas delas sendo infectadas em um curto período de tempo. Em poucas horas o vírus se espalhara pelo corpo humano, tornando-se letal em menos de um dia. Na primeira semana, nada mais estava como antes, em lugar nenhum.

“(…) E então veio um vírus semelhante a um anjo vingador, que não deixava sobreviventes, um micróbio que reduziu a quanto a população do mundo caído? Não havia mais estatísticos àquela altura, meus anjos, mas devemos calcular em noventa e nove vírgula nove por cento, não é?” Estação Onze, pág. 48

Vinte anos se passaram e o mundo – ou pelo menos a América do Norte, que é o local onde se passa a maior parte da história – continua devastado. Agora, os anos são contados a partir do ano da Gripe e a maioria das pessoas vivem  em pequenas comunidades, caçando animais para sobreviver.

Porém, algumas pessoas, como as que vivem nas caravanas da Sinfonia Itinerante, preferem estar em constante movimento, viajando de um local para outro. A Sinfonia é constituída basicamente por músicos e atores, realizando espetáculos como encenações das peças de Shakespeare e concertos musicais pelas cidades onde passam, apenas pelo prazer de fazer aquilo que amam, levando como lema a frase gravada em seu trailer principal, “Porque sobreviver não é suficiente”.

Uma das integrantes da Sinfonia, a atriz Kirsten Raymonde, agora com seus vinte e tantos anos, lembra-se vagamente da noite em que Arthur Leander caiu no palco da peça em que ela representava uma das três filhas, ainda jovens, do rei  e dos fatos que ocorreram posteriormente. Agora, Kirsten vive a vida interpretando papéis em peças teatrais organizadas pelo grupo, protegendo-se dos perigos com suas três facas e sua mira aguçada.

Assim como Kirsten, muitos pessoas que passaram pela vida de Arthur Leander irão protagonizar o livro. Esse personagem, que morre tão cedo na trama, ainda em um mundo sem a Gripe da Geórgia, conforme a história se desenvolve, demonstra ter um papel de extrema importância para a trama. É através daqueles que se relacionaram com ele – ex-esposas, amigos, filho e telespectador – que a história se desenvolve até chegar ao final.

Bem, esse é mais um dos livros que tive que ler para o Clube do Livro da Intrínseca, dessa vez para o mês de abril. Inicialmente, fiquei descontente com a escolha, pois já tinha ouvido falar muito mal dele. Porém, ao contrário da maioria das pessoas do Clube, acho que justamente por já ter uma expectativa baixíssima em relação a ele, eu fui surpreendida positivamente.

Creio que o grande número de experiências negativas se dá justamente pelo fato do livro ser diferente daquilo que a maioria espera encontrar nele. Classificado por alguns como uma ficção-científica, ele não traz nenhum elemento do espaço ou de outro mundo, a não ser na história em quadrinhos do Dr. Onze, história criada por Miranda, a primeira mulher de Arthur.

“Existem vários personagens importantes no projeto da Estação Onze, mas o herói é o Dr. Onze, um físico brilhante cuja aparência é muito similar à de Pablo, mas fora isso não tem nada a ver com ele. (…) Seu nome deriva da estação espacial onde mora. Uma civilização hostil de uma galáxia próxima tomou o poder na Terra e escravizou a população, mas algumas centenas de rebeldes conseguiram roubar uma estação espacial e fugir. O Dr. Onze e seus colegas conseguiram esgueirar-se com a estação espacial através de um buraco de minhoca no cosmos e se escondem nas regiões remotas e não mapeadas do espaço profundo. Tudo isso acontece mil anos no futuro.
A Estação Onze tem o tamanho da lua terráquea e foi planejada para dar a impressão de que é um planeta, mas é capaz de viajar pelas galáxias e não requer nenhum sol. No entanto, o céu artificial da estação foi danificado por causa da guerra e por isso na Estação Onze sempre é pôr do sol, crepúsculo ou noite. (…) Algumas pessoas, depois de quinze anos de crepúsculo perpétuo, não veem a hora de voltar para casa, retornar à Terra e implorar anistia, arriscar a sorte sob um governo alienígena. Elas moram em Submarina, uma vasta rede interligada de abrigos nucleares embaixo dos oceanos da Estação Onze. (…)” Estação Onze, pág. 64

Ao invés disso, Estação Onze é um livro mais parado, sem muita ação, que explora muito mais a interação humana em si, através de um determinado grupo de personagens,  do que qualquer outro tema. É super fascinante a maneira como a autora faz viagens no tempo, misturando acontecimentos de antes e depois da Gripe, fazendo com que tudo se conecte e faça sentido no final.

Contudo, apesar de ter adorado o enredo, algumas perguntas não respondidas, sobretudo com relação a Gripe, ainda me incomodam. Por exemplo, o fato da autora não explicar mais detalhadamente alguns aspectos da Gripe, como onde e como surgiu, como afeta as pessoas e por que tem um período de incubação tão rápido. Além disso, será que é realmente verdade o que um dos personagens do livro fala sobre a quantidade de pessoas que foram infectadas e, consequentemente morreram, durante todo o tempo desde que a Gripe surgiu? Será que nenhum lugar foi poupado? Ela realmente reagiu da mesma maneira em todos os lugares do mundo? E, além disso, depois de tanto tempo, a Gripe foi ou não refreada? Ela ainda pode contagiar os que sobreviveram ou eles são imunes a ela? Bem, acho que terei que esperar um improvável encontro com a autora para sanar todas essas dúvidas, não é mesmo?

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Um comentário sobre “Livro: Estação Onze

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