Coleção Pajeú: Pici

Coleção Pajeú está de volta! Para aqueles que gostaram das postagens sobre os bairros Aldeota, Benfica e Jacarecanga, agora viemos trazer algumas memórias do bairro Pici.

Pedro Salgueiro, autor do livro, também escreveu vários outros livros, contos e crônicas. É vencedor do  Prêmio de Contos da Biblioteca Nacional/INL, o Prêmio da União Latina –Concurso Guimarães Rosa de Literatura/Radio France Internationale, dentre outros. Organizou o Almanaque de Contos Cearenses e O Cravo Roxo do Diabo: o conto fantástico no Ceará.

Para escrever sobre o Benfica, Pedro foi ao bairro junto de outros amigos escritores conterrâneos para conhecer alguns dos seus pontos mais marcantes, além de ler livros que contam um pouco da história do local e realizar pesquisas com pessoas influentes na construção da memória de Fortaleza, como o pesquisador Miguel Ângelo de Azevedo, o Nirez, dono de um dos mais completos arquivos sobre a cidade.

Fruto desse esforço, um dos pontos mais interessantes dessa pesquisa  é a origem do nome do bairro, que muitas pessoas pensam ter a ver com a época em que os americanos habitavam essas terras, durante a II Guerra Mundial, sendo Pici uma referência às letras “p” e “c” em inglês, siglas para o Posto do Comando (Post of Command) da Base Aérea Americana em Fortaleza.

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Antigo campo de pouco do Pici. Acervo: Carlos Neto. Fonte: Fortaleza Nobre.

Após algumas pesquisas, porém, chega-se a conclusão que Pici é resultado do nome de um antigo sítio da região, o ‘Sítio Pecy’, provavelmente da família Braga, que aglutinou os nomes Pery e Cecy (grafia antiga, só depois modificada para Peri e Ceci), principais personagens do romance O Guarani, de José de Alencar, obra favorita do agrimensor Antônio Braga. Tal designação, em seguida, acabou dando nome a toda a região.

273068_Capa_GO Guarani de José de Alencar em quadrinhos, editora Ática.

Muito tempo depois, quando o nome já fazia parte do bairro, chegaram aqui os soldados americanos, como conta Maria Luíza de Queiroz, irmã caçula da escritora Rachel de Queiroz, no livro escrito em parceria com a irmã, “Tantos Anos: Uma Biografia”.

“Meses depois, o Brasil entrou na guerra e então soubemos que naquela faixa de terra e mais nas de outros proprietários (…) seria construída a base aérea americana. Logo foram iniciadas as obras de desbastamento e terraplanagem e, não tardou, os americanos começaram a aparecer. Primeiro os técnicos e engenheiros, e em seguida os soldados. Aos poucos foram tomando chegada lá em casa e, através de intérpretes, fazendo amizade com papai, a quem pediam licença para percorrer o sítio, alegando a necessidade de conhecer as vizinhanças da base, a direção dos ventos e das águas; mas, na verdade, faziam um mapeamento de toda a região.” – QUEIROZ, Maria Luiza, apud SALGUEIRO, Pedro.

Junto aos soldados americanos, chegaram os blimps, dirigíveis de porte menor, que alegravam crianças e adultos quando estavam no ar. Tais blimps inspiraram o famoso conto de Rachel de Queiroz, Tangerine Girl, que depois virou filme e foi apresentado no Sundance Film Festival de 1999.

“(…) o blimp, que eu conhecia apenas de fotografia, e assim mesmo conhecia só do seu irmão maior, o Graf Zeppelin. Estava ancorado, ou seja, amarrado aos postes ou que nome tenha aquilo onde se amarram os blimps, adejando ao vento, prateado, luminoso, refletindo o sol da manhã.

E depois desse vieram outros, de dois, de três, que passavam em revoada sobre a nossa casa, a gôndola quase roçando a copa do pé de cedro, tão baixo que, de bordo, os rapazes acenavam e nos jogavam revistas e jornais americanos.” – QUEIROZ, Maria Luiza, apud SALGUEIRO, Pedro.

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Blimp K-84 do ZP-41 na base americana do Pici. Fonte: Hangar do Vinna.

A base aérea do Pici, finalizada em 1942, teve, porém, um erro no posicionamento da pista, o que colocava em risco o pouso e decolagem das aeronaves de maior porte, sendo necessário o estabelecimento de outro local para uma nova pista, o que aconteceu no Cocorote (Cocó route). Com o fim da guerra, a base aérea virou o velho Aeroporto Internacional de Fortaleza.

velho terminal do Aeroporto Pinto MartinsAntigo Aeroporto Internacional. Fonte: Fortaleza Nobre.

Outro lugar importante do bairro é o campus da Universidade Federal do Ceará (UFC), que começou com o Centro de Agronomia, situado no Sítio Santo Anastácio, antes particular, sendo federalizado em 1950 e integrado à UFC em 1954. A partir daí, a expansão da Universidade foi ocorrendo de forma cada vez mais rápida, acontecendo também em outros bairros da cidade. Após um tempo, o centro de tecnologia foi transferido do Benfica para o Pici, começando com o Instituto de Química e Tecnologia, que foi transferido para resolver problemas gerados pela falta de uma rede de esgotos que suportasse os resíduos produzidos pelos laboratórios e despejados nela.

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Campus do Pici. Fonte: Lanab

Além disso, para aqueles que amam o futebol, pode ser encontrado no Pici a sede do Fortaleza Esporte Clube, instalado no bairro em 1962 junto com o campo e o estádio Alcides Santos, que recebeu esse nome em homenagem ao primeiro presidente da história do clube, em um terreno comprado por Otoni Diniz, presidente na época, com recursos próprios.

piciEstádio Alcides Santos do Fortaleza Esporte Clube, também conhecido como “Leão do Pici”. Fonte: Fortaleza Nobre.

Talvez, uma das figuras mais ilustres que morou no bairro foi a escritora cearense Rachel de Queiroz, que morou no ‘Sítio do Pici’ com sua família durante anos, até se casar com seu marido Zé Auto, em 1932, voltando para visitá-los eventualmente. Foi no Sítio do Pici que Rachel escreveu as obras “O Quinze” e “João Miguel”. O Sítio foi construído no lugar em que antes havia uma antiga casa, que foi derrubada para a implantação da casa dos Queiroz.

“Fizemos então a nova casa, enorme, um vaticano, salas largas, rodeada de alpendres, como nós gostávamos. (…). Nas grandes mangueiras do pomar eu armava a minha rede e passava as tardes lendo. De noite, formávamos uma pequena orquestra com o nosso professor de violão, seu Litrê, puxando no banjo. Nas noites de lua, altas horas, vinham uns moços de Porangaba e faziam serenata, cantando Mi noche triste. Porque nesse tempo, o chique era o tango. Mas depois fomos nos dispersando. Os rapazes se formaram, morreu Flávio aos dezoito anos, e desceu uma sombra escura sobre o Pici.(…) Enquanto isso, a cidade crescia, ia cercando o sítio com seus exércitos de casinhas populares. Meu pai morreu. Morreu outro irmão, Luciano. Minha mãe ainda tentou ficar no Pici, mas o cerco urbano continuava, o terreno invadido pela vizinhança, de certa forma até ameaçando a segurança da casa. (…) Acabou mamãe tendo mesmo que vender o sítio. E vieram, ela e Maria Luíza, morar no Rio. Era em 1952. Em fevereiro de 1954, mamãe morreu, sem voltar lá, como desejava. Pelo que sabemos, o sítio foi loteado e já passou por várias mãos. Nunca mais fui lá. Dói demais. (…)” – QUEIROZ, Rachel, apud SALGUEIRO, Pedro.

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Casa Rachel de Queiroz. Fonte: Mapa Cultural do Ceará.

Hoje, a casa da escritora encontra-se tombada. Porém, segundo uma vizinha da casa entrevistada pelo autor, as informações coletadas referentes à casa são

“que os atuais donos “não deixam ninguém entrar sem autorização”, que “muita gente vem olhar de fora a casa”, que ela “é mais conhecida hoje como ‘Sítio do Papai’” e que, recentemente, ouviu boatos: “a prefeitura disse que ia fazer uma biblioteca, mas nunca mais apareceu ninguém”.” Coleção Pajeú: Pici, pág. 73.

Como se pode observar nesse trecho do livro Tantos Anos, aos poucos, o bairro do Pici foi se degradando, sendo partes dele repartidas entre os bairros Henrique Jorge e Jóquei Clube. Muitas de suas partes estão abandonadas e degradadas, com boa parte dos recursos naturais presentes no bairro bastante degenerados. Para resolver tal problema, foi criado o projeto “Parque Ecológico Rachel de Queiroz”, do arquiteto  José Sales Costa.

“(…) O marco conceitual desta proposta do PARQUE RACHEL DE QUEIROZ envolve a recuperação, conservação e proteção de um conjunto de ecossistemas ambientais urbanos composto de vários cursos d’água e  vegetação de porte, em situações devolutas ou inadequadamente ocupadas

(…) Do ponto de vista da proteção e preservação ambiental, o Parque terá influência primordial na recuperação dos ecossistemas componentes dos Riachos Alagadiço e Cachoeirinha (no Pici), Açudes João Lopes e Santo Anastácio (também no Pici). Do ponto de vista urbanístico a proposta trará ao uso público glebas urbanas hoje abandonadas, devolutas ou ocupadas indevidamente. Do ponto de vista social, haverá o resgate de dívida com a população da Zona Oeste, carente de espaços de lazer e historicamente excluída dos principais programas de melhoria do meio ambiente urbano.”. COSTA, José Sales, apud SALGUEIRO, Pedro.

logo parque rachel de queiroz Movimento Pró Parque Rachel de Queiroz. Fonte: João Paulo Roque.

Cabe a nós apenas esperar que um dia tal projeto saia do papel.

O livro de Pedro Salgueiro, além de trazer vários fatos interessantes sobre o bairro, acaba dando dicas de livros através de suas referências bibliográfica. Dentre eles, os que mais me interessaram foram a bibliografia de Rachel e Maria Luiza de Queiroz, amplamente citada no livro e, consequentemente, nesse post, e o livro infantil “A Casa dos Benjamins”, da autora cearense Socorro Acioli.

E você? Conhece mais alguma curiosidade sobre o bairro? Comente nesse post ou nas páginas do Instagram ou do Facebook o que você sabe sobre o Pici! Lembrando que, para quem quiser ter acesso ao livro do qual estamos tirando essas maravilhosas histórias, o site da Secretária de Cultura de Fortaleza disponibilizou a versão digital de grande parte dos livros da coleção Pajeú. Boa leitura!

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